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sexta-feira, 27 de abril de 2012

As cotas raciais e a falência do Estado democrático

Antonio Pinho

Na manhã do infeliz dia 27 de abril de 2012, ao acordar ligo o rádio e ouço a notícia de que o Supremo Tribunal Federal (STF), ao julgar uma ação de inconstitucionalidade promovida pelo partido Democratas contra as cotas raciais da UNB, julgou constitucional que negros devem ter um estatuto privilegiado nos vestibulares. Ou seja, temos agora um grupo de brasileiros que, por causa de sua cor, ganha benefícios do Estado.
Pergunto-me sobre a seguinte situação. É justo que um negro de classe média alta seja beneficiado por cotas no vestibular, enquanto os brancos pobres não tenham acesso ao mesmo “direito”? No caso que dois vestibulandos, um negro de classe média alta e um branco pobre, concorram por uma vaga em universidade pública, e tirem a mesma nota, o negro terá sua vaga, enquanto o branco pobre terá de interromper seus estudos, o que enterra sua única possibilidade de tentar ascender socialmente. Isso é justo? Obviamente que não. Mas é isso que todo ano ocorre nas universidades que adotam as cotas raciais.
Tenho um amigo muito próximo, um jovem branco e pobre, que recentemente fez vestibular para a UFSC. Para sua infelicidade não se classificou, mesmo tirando boa nota. Ele me relatou que um colega seu do ensino médio, negro, tirou praticamente a mesma nota, para o mesmo curso na UFSC, e foi aprovado. Agora, enquanto seu colega negro está estudando em uma boa universidade pública, meu amigo é obrigado a ter que trabalhar para se sustentar, ganhando o piso salarial. O pior é que, por enquanto, meu amigo não tem recursos para pagar para estudar em uma universidade privada. Torço por meu amigo, para que um dia ele realize seu sonho de frequentar uma universidade pública.
Eu mesmo senti-me discriminado pelas afirmações, nem um pouco científicas, sobre o passado histórico do Brasil. Sou descendente de quarta geração de portugueses, do lado paterno, e do lado materno também descendo de portugueses. Não me constranjo de minhas origens, muito pelo contrário, orgulho-me. Meus ancestrais no Brasil trabalharam duro no Sul para ajudar a construir esta nação. Meu bisavô, inclusive, no final do século XIX, tinha alguns poucos escravos em sua pequena propriedade rural. Meu pai me contou que meu bisavô era conhecido na região onde morava por ser muito bondoso com seus escravos. Os negros gostavam de trabalhar para ele porque eram tratados dignamente, não sofrendo nenhuma espécie de violência física.
Agora o STF reescreve a história e demoniza os antigos escravocratas como a personificação do mal absoluto, como se todo proprietário de escravos fosse essencialmente cruel no relacionamento com seus negros. Esse imaginário do senhor de escravo cruel foi sendo progressivamente construído, porém não tem embasamento histórico. Iniciou mesmo no século XIX, durante o romantismo brasileiro. O romance A escrava Isaura de Bernardo Guimarães, por exemplo, pinta Leôncio, vilão e o dono de Isaura, como um homem totalmente insano, disposto a tudo, inclusive a destruir seu patrimônio, para poder possuir sexualmente sua famosa escrava branca. Com as adaptações televisivas desse romance, mais a atuação de ONGs demagógicas, reescreveu-se a história do Brasil, demonizando todos os antigos senhores de escravos, criando o mito da contemporânea segregação racial brasileira. A própria história de meus antepassados portugueses é mais um entre tantos outros indícios da mentirosa história que nos é contada. No Brasil do tempo da escravidão, apesar dos excessos que não devem ser escondidos, o negro livre tinha os mesmos direitos que o branco.
Nossa história antiga está repleta de negros políticos, padres, professores e intelectuais. Machado de Assis é o maior exemplo. Nosso maior escritor era negro. Lima Barreto, outro grande escritor, também era negro. Ainda no início do século XX tivemos nosso primeiro presidente negro, Nilo Peçanha. A trajetória desses e tantos outros brasileiros demonstra que, historicamente, o preconceito no Brasil é muito mais social que racial. No país do carnaval o pobre sempre foi discriminado, seja branco ou negro. Lembremos a famosa frase do personagem Caco Antibes, do programa Sai de Baixo, que se orgulhava em dizer que era um branco louro príncipe dinamarquês: “Eu tenho horror a pobre”. Usando o humor, o ator Miguel Falabella mostrou ao Brasil, durante anos, como é grande o preconceito social. O negro rico e com elevada escolarização não é alvo de casos extremados de preconceito racial. Outro fator que demonstra o baixo (até ínfimo) nível de preconceito na sociedade brasileira, é o grande percentual de miscigenação. Ao longo da história do Brasil são inúmeros os casos de casamentos inter-raciais. Os colonos portugueses não sentiam repulsa em casar com uma negra, mulata ao indígena. O próprio Machado de Assis em pleno século XIX casou com uma mulher branca. A grande miscigenação dos brasileiros é mais uma barreira para a política de cotas. Como definir quem é ou não negro ou índio? Já que a maior parte dos brasileiros tem traços genéticos de negros, brancos e índios misturados.
Por outro lado é a própria biologia quem afirma que não há raças humanas, mas apenas uma única raça. As variações de cor de pele e olhos, tipo de cabelo, formato de crânio e nariz são determinadas por diferenças genéticas muito pequenas, que não bastam para dizer que há mais de uma raça humana.       
Ao contrário das antigas colônias portuguesas, a colonização inglesa foi muito mais cruel com os negros. Nos EUA até os anos 60 do século XX, havia um regime de segregação racial, no qual os negros claramente não tinham os mesmos direitos que os brancos. Esse preconceito racial apesar de ter se reduzido um pouco, ainda é muito presente na sociedade americana. Outra colônia inglesa, a África do Sul, só viu seu sistema de segregação racial acabar muito recentemente, no início dos anos 90 do século passado. Esse sistema de drástica separação de etnias encontra origem no fato de que  colono inglês nunca aceitou ter relações sexuais com negras, ao contrário dos portugueses. Enquanto no Brasil, desde o início de sua colonização, o negro nascido de pais livres, ou que fosse alforriado, tinha os mesmos direitos que um branco.
Não estou aqui querendo defender a escravidão, que não é uma instituição aceitável, mas a verdade histórica não pode ser calada. Realidades diferentes devem ser analisadas de modo distinto. É fato que tanto nos EUA quanto no Brasil houve escravidão, mas nesses dois países a escravidão teve características sociais totalmente diferentes. Como acabei de mencionar, nos EUA de até os anos 60 o negro não era formalmente um escravo, mas jamais teria acesso aos mesmos direitos que um branco. Ao passo que no Brasil de todas as épocas, não importava se a raça era branca ou negra, qualquer homem livre tinha os mesmos direitos.
Os senhores do STF, mesmo sendo bem mais velhos que eu, parecem desconhecer a história social do Brasil. Parecem que desconhecem a própria constituição. Eles julgaram a ação movida delo Democratas, não em relação à constituição brasileira, mas em relação às suas convicções pessoais, o que não é correto. Por essa ação ilegal e tantas outras cometidas atualmente, o atual STF perdeu sua legitimidade, como instituição democrática. O STF está tomado por agentes esquerdistas que estão gradativamente desmontando o Estado democrático de direito, para a instauração de uma ditadura comunista. O STF perdeu sua legitimidade, pois a atuação de um juiz do Supremo – como qualquer outro juiz – deve ser pautada por questões técnicas, e não por convicções ideológicas ou filosóficas. Ora, a constituição afirma sem margem para dúvidas que “homens e mulheres são iguais em direitos e obrigações, nos termos desta Constituição” (art. 5º, § I). Portanto, é claramente anticonstitucional qualquer medida que crie um sistema de desigualdades raciais, dando privilégios a certas etnias. Mas os senhores juízes do STF parecem mais analfabetos em história, e o pior, desconhecem a natureza da carta magna da Nação.
No segundo dia do julgamento do STF, dois índios foram expulsos da sessão por causar um pequeno tumulto enquanto protestavam. Esses dois índios querem também suas cotas. E pela lógica do STF, estão certos, porque se os negros têm cotas, os índios também devem ter. Mas para haver justiça deveríamos dar cotas a judeus, chineses, japoneses, alemães, polacos, italianos, espanhóis, portugueses, etc. Se damos cotas a uma etnia, temos que dar cotas a todas, para haver democracia. Se for assim, eu apoio o protesto do índio, já que contam que em algum ponto da árvore genealógica de minha família, um português casou com uma índia. Ainda não confirmei essa história, mas se eu for descendente de indígena – como a maioria dos brasileiros – também quero minha cota. Não, pensando bem não seria justo a outras etnias, seria um tiro contra a lógica e o bom senso. Além do mais, mesmo sendo estudante de escola pública de um bairro de classe média baixa e de pobres, não precisei de cotas na hora do vestibular.
A última atitude do STF é claramente antidemocrática, pois gera desigualdades entre iguais. É um atentado contra a constituição, e contra a própria educação, pois o ensino superior numa faculdade pública deve ser voltado para os mais capacitados intelectualmente, seja qual for sua cor, raça ou religião. A universidade existe para gerar cultura e ciência, e não para ser motivo de divisão racial e polêmica, descriminando o branco pobre.   
Diante de tantas arbitrariedades que o STF tem cometido nos últimos anos, tenho medo de saber qual será a próxima. Esperemos para ver.  
    

quinta-feira, 26 de abril de 2012

As duas cidades de Santo Agostinho


Antonio Pinho

O marxismo define a história como um perpétuo conflito de classes: a burguesia e o proletariado, numa luta por dominação dos mais pobres pelos mais ricos. A retórica comunista pode parecer atraente, porém é falha. Os fatos da história comprovam como a teoria sócio-econômica de Marx está errada. Sempre que se colocou o marxismo em prática nas sociedades tivemos perseguição religiosa e mortes. Estima-se que o comunismo desde que foi criado tenha sido o responsável por mais de 100 milhões de mortes no mundo todo. Por esse simples cálculo, não sou comunista. Prefiro crer naquEle que trouxe a vida e a verdade para este mundo, e não naqueles que só trazem a morte e a mentira. Creio em Cristo, que é o Caminho a vida e a encarnação da Verdade.

Santo Agostinho, no livro A Cidade de Deus, por sua vez, fala de outro conflito. Esse é um conflito muito real e palpável: o conflito entre o bem e o mal. É a guerra entre a civitas Dei e a civitas diaboli, que em latim significa a cidade de Deus e a cidade do diabo. No presente, essas duas cidades convivem como que misturadas, porém os cristãos sabem que Deus resgatará a sua Cidade para a eternidade e destruirá de uma vez por todas a cidade do diabo.

Mas o que caracterizaria uma e outra cidade? É surpreendente como Santo Agostinho nos afirma que as duas cidades são movidas por uma única coisa: o amor. Ou melhor, dois amores totalmente opostos, inconciliáveis desde o princípio dos tempos.     

A cidade do diabo é movida pelo amor ao presente, ao mesmo tempo que gera um ódio pela eternidade, pelas coisas dividas, por Deus. É esse amor que leva ao amor extremado por si mesmo, que resulta no individualismo, o qual se esquece do próximo necessitado, que jaz na miséria e morre de fome. É esse amor o amor pelas glórias desse mundo, pelo poder e pelo dinheiro. Esse amor não se importa com as coisas que duram para sempre, pensa somente no hoje. Ao mesmo que esse amor é um ódio a Deus, ele faz o homem achar que é auto-suficiente, portanto, não necessita de Deus. Quem acredita que não necessita de Deus termina por se colocar no lugar de Deus. Infelizmente, essa atitude é tão comum na atualidade, e justamente por isso há tanto sofrimento no mundo. Quem pensa que é Deus está disposto a fazer qualquer coisa contra o próximo. Disso nascem as tiranias e as guerras. Enfim, a cidade do diabo terá o seu fim, como nos prometem os profetas da Sagrada Escritura.            

O fim da cidade do diabo significará a vitória final da cidade de Deus. Contudo, no presente, as duas cidades estão destinadas a conviver lado a lado, o que gera o maior conflito de todos os tempos, o motor da história humana: a luta de Lúcifer contra Deus.  A cidade do diabo é a causa a opressão e perseguição que sempre viveu a cidade de Deus. A cidade do diabo era a causa da escravidão a que os judeus foram vítimas nos tempos de Moisés. A cidade do diabo no século XX novamente oprimiu o povo judeu e provocou a maior guerra de todas, e no início do século XXI o maior atentado terrorista da história, em 11 de setembro. A cidade do diabo está viva e convive entre nós, como se fosse invisível. Apenas os habitantes da cidade de Deus podem vê-la, porque sentem na pele o sofrimento que é ser perseguido por pregar a palavra de vida e salvação de Cristo. E por amor e devoção ao anúncio da palavra de Deus, são mortos todos os dias. Morrem justamente porque amam Aquele que a cidade do diabo odeia, o Deus único e verdadeiro, criador e mantenedor de todas as coisas.

É estarrecedor saber que no século XX morreram mais mártires cristãos que em todos os outros séculos juntos. Na verdade os profetas já haviam anunciado que nos últimos dias o mundo seria palco de coisas terríveis jamais vistas, que aqueles que amam ao Filho de Deus seriam perseguidos e mortos por sua fé.

Contudo, é maravilhoso ver como após dois milênios de sofrimentos e perseguições, a fé em Cristo permanece viva, e continua gerando conversões. O fato de Cristo hoje curar e libertar tantas vidas demonstra que nossa fé é verdadeira. A cidade do diabo, porém, odeia a verdade, pois ela prefere inventar suas próprias verdades, que na verdade são enganos, armadilhas a afastar multidões da cidade de Deus.

A cidade de Deus é o puro amor, um sentimento que transcende o próprio eu, e nos leva a uma união perfeita com o Criador. A cidade de Deus é movida por um amor tão perfeito que ama até quem a odeia, persegue e mata seus moradores. Os habitantes da cidade de Deus amam tanto a Deus e ao próximo que chegam até a esquecer de si, porque não lhes importa morrer. Sabem que a alma é imortal, e para cultivá-la corretamente só o completo desprendimento das coisas do mundo levam a uma perfeita comunhão com Deus. Sendo imortal, a alma daquele que ama verdadeiramente a Deus retornará a Deus, enquanto a alma daqueles que o odeiam verão “a segunda morte: o lago de fogo” (Ap 20, 14).

Recordo-me de um dos maiores moradores da cidade de Deus: são Francisco de Assis. Este grande santo compreendeu como era inútil amar as coisas terrenas, que o tempo destrói. Numa demonstração de seu amor por Cristo, deixou tudo para trás, como tinham feito os primeiros discípulos de Jesus. São Francisco inclusive despiu-se de suas próprias roupas ao deixar a casa de seu pai. Transformou-se em mendigo aos olhos da cidade do diabo, mas riquíssimo à cidade de Deus. A ordem religiosa que fundou continua viva como nunca, passados tantos séculos. Tive a felicidade de visitar seu túmulo, na cidade de Assis, na Itália, e o local onde ele morreu, e pude pessoalmente observar como multidões, movidas por tão belo testemunho de vida, são atraídas a esses locais. A vida de são Francisco demonstra como os atos feitos com verdadeiro amor a Deus permanecem, não são esquecidos, ao passo que as ações da cidade do diabo estão fadadas ao esquecimento. Quem atualmente conhece o nome de três imperadores da mesopotâmia, que viveram a mais de três mil anos? Por outro lado ainda recordamos da vida santa de homens de fé como Abraão.   

O destino da cidade do diabo é a autodestruição, a morte e o esquecimento. Pela Palavra de Deus sabemos que o bem triunfará no final. O destino da cidade de Deus é a eternidade. Seus moradores saberão o que é a verdadeira vida, terão uma existência infinitamente plena e feliz. O tabernáculo de Deus, a nova Jerusalém “descida do Céu”, estará entre aqueles que crêem e morrem em Cristo. O próprio Deus encarnado, o Verbo, caminhará entre aqueles que tiverem seus nomes inscritos no livro da vida.      


Referência
AGOSTINHO, Santo. A cidade de Deus. 10 ed. Bragança Paulista: São Francisco, 2007.

terça-feira, 10 de abril de 2012

A bela verdade da morte e ressurreição de Cristo

Antonio Pinho

E por mais que eu me esforce
Não sei bem se Te conheço
Tu enxergas o profundo
Eu insisto em ver a margem
Quando vês o coração
Eu vejo a imagem


É este o meu trecho preferido de uma das mais pelas canções de Pe. Fabio de Melo, Humano Demais. Eu me identifico muito com o sentimento expresso por esses versos. Pois, quando à noite, antes de dormir, me coloco a pensar em Deus, sempre descubro coisas novas e belas. Sigo assim o conselho de Santo Agostinho: “Não saias de ti, mas volta para dentro de ti mesmo, a Verdade habita no coração do homem” (A verdadeira religião, 39,72). De fato, a Sagrada Escritura nos diz que o Reino de Deus habita em nossos corações. São Paulo, na Carta aos Romanos, afirma que a verdade fora colocada pelo Criador em nossa alma. Quando, no silêncio, nos voltamos para nosso interior, descobrimos a face de Deus. “Se perscrutarmos nossa alma, segredos se nos mostram as delícias do pensamento” (Chateaubriand, O gênio do cristianismo). Mas, por mais que eu tente, como diz a música, não sei bem se conheço Jesus.

A realidade da encarnação de Cristo é tão grande e maravilhosa, que por mais que se escreva e se reflita sobre ela, não chegamos a uma compreensão plena desse mistério. É tal como a metáfora usada por São João, no final de seu Evangelho: livros poderiam cobrir todo o mundo, mesmo assim faltariam coisas a escrever sobre Cristo. São Paulo está certo quando fala que agora apenas conhecemos a Jesus como que em reflexo, e não sua verdadeira face. A Verdade plena nós conheceremos somente no dia em que sua glória for novamente manifestada, na sua volta, momento em que nós, seres imperfeitos e corruptíveis, seremos transformados: o véu divino da incorruptibilidade nos cobrirá. Deus nos tornará perfeitos. Somente então poderemos ter completo conhecimento do Verbo feito carne. Mesmo assim, na eternidade, continuaremos progredindo nesse conhecimento. Do infinito que Ele é somente vemos uma ínfima parte, na qual confiamos e temos fé.

Confesso minha ignorância. Ainda estou muito longe que compreender a grandiosidade de Deus: tornar-se homem e morrer pelo homem. Deus é um mistério. E como afirmava Chateaubriand, em seu livro acima citado, O gênio do cristianismo, “As coisas misteriosas são o que há mais belo, grandioso, e doce na existência.”

A Bíblia nos mostra como o homem se torna iníquo quando se distancia de Deus. O gesto de negar a Deus – como contam tantas histórias da Bíblia – gera autodestruição, morte. Mesmo o homem chegando ao extremo do mal, que é odiar Deus e vê-lo como fonte do mal, Deus mostra sua misericórdia e continua amando a humanidade, sua mais preciosa criação. Deus amou tanto que “nos deu mais uma chance”. Essa “última chance” é Jesus. Crer verdadeiramente nele significa ter a verdadeira vida. Ou seja, se em Cristo morremos, em Cristo renasceremos para a eternidade. Aqueles que dão seu sim a “chance” que Deus nos deu, verão maravilhas no mundo novo que Deus prepara aos que serão salvos, o Reino dos Céus. Dar um sim pra Deus significa crer que Jesus morreu na cruz e ressuscitou.

Fico pensando: “como pode Deus morrer?” Com essa pergunta, então, descubro que o Amor tudo faz. Cristo disse que não há maior amor do que morrer por um amigo. Se creio que Deus morreu numa cruz por mim, descubro que tenho o maior amigo de todos. Descubro que aquele que criou as mais distantes galáxias desse imenso universo se importa e ama um pobre, pequeno e ignorante pecador como eu, “pequena partícula da criação” (Santo Agostinho, Confissões). Descubro que Deus quis viver minha condição, viver minhas fraquezas. Eis a grandeza de Deus, tornar-se pequeno. É na pequenez de uma criança de Belém, filha de um humilde carpinteiro, que a maravilha do Amor de Deus se revela em sua totalidade, que mesmo ainda não compreendendo, creio.

Também penso no seguinte: o que teria ocorrido se no tempo de Jesus os homens o tivessem aceitado, colocando-o no trono de Davi? Bom, essa era uma possibilidade, os homens são livres para fazer o mal ou o bem. Se tivessem feito o bem, Jesus não teria morrido, e o Reino dos Céus já teria se concretizado há dois mil anos. Por outro lado, Deus conhece o coração humano, sabe que nele existe uma propensão ao mal. Deus sabia que os homens negariam mais uma vez a Verdade – como já tinha feito Adão, ou depois, a humanidade nos tempos de Noé –, mesmo assim, Deus, na sua imensa misericórdia, não desistiu de nós. Os homens tinham se desviado tanto da Verdade, que foi necessário que a Verdade se tornasse carne. Era necessário que a Verdade viesse até nós, senão jamais a conheceríamos, e sem Ela estaríamos fadados a morte. Mas Deus tem outros planos, que não são de morte, mas de “vida, e vida em abundância.” A realidade do mistério de Deus é que não é o homem que encontra a Verdade, mas é a Verdade que vai ao encontro do homem.

De fato, a Verdade se encarnou e veio até nós, para tirar-nos da miséria da morte. Como odiamos a Verdade, nós a matamos. Porém, o que é maravilhoso, diante do maior ato de ódio da história, a Verdade continuou nos amando, por isso ressuscitou. Deus provou que nada pode vencer a Verdade, nem a morte. Por isso, se cremos nesse Amor, na sua encarnação, morte e ressurreição, também venceremos. Teremos a maior vitória de todas: a vida eterna ao lado de Jesus.

Mesmo sabendo disso, “por mais que eu me esforce, não sei bem se Te conheço”. O mistério da Páscoa me faz ter fé no que não vejo, me faz procurá-lo mais. Quero a cada dia melhor conhecê-lo. Como só o conheço em parte, continuo buscando a Deus, até que um dia eu possa vê-lo face a face.


quarta-feira, 4 de abril de 2012

Demóstenes Torres - o que faltou dizer

Ontem publiquei aqui um artigo sobre o caso Demóstenes. Agora há novas informações. Hoje soube que as gravações foram feitas de modo ilegal. Como prevê a lei, gravações feitas sem autorização judicial, num processo, não possuem validade como provas de acusação. Diante desses novos fatos só há uma coisa a se falar: tudo o que a mídia e o governo estão fazendo contra o senador Demóstenes é um grave crime de calúnia. A Polícia Federal ficou inimagináveis três anos vigiando a vida desse político, e agora, num momento mais que oportuno, às vésperas do julgamento do mensalão, criam todo esse circo, fazendo vazar, num ato de banditismo descarado, os diálogos com Cachoeira.

Nada disso me provoca surpresa, pois esse não é o país do Big Brother?

Leia também: Demóstenes Torres, o bode expiatório da vez

terça-feira, 3 de abril de 2012

Demóstenes Torres, o bode expiatório da vez


Está cada vez mais próximo o julgamento do maior caso de corrupção da história do Brasil. Após esses anos de espera, veremos que destino terão os famosos mensaleiros. O PT de José Dirceu e quadrilha conseguiu a proeza de institucionalizar a corrupção, montando um sofisticado esquema de arrecadação e distribuição de propinas. Foi dessa forma que o PT conseguiu construir sua maioria no congresso, pagando um “salário extra” com dinheiro sujo. Foi dessa maneira, investindo rios de dinheiro que os comunistas do PT destruíram a direita.

Após 8 anos no purgatório, durante o governo Lula, a direita foi se esvaziando gradativamente, até praticamente morrer. Lula em seus discursos insistia na fantasiosa história de “uma herança maldita” a ser vencida. Tal herança era simplesmente uma democracia que estava entrando numa fase de amadurecimento, tomando o rumo do neo-liberalismo (que prega o estado mínimo e o não intervencionismo estatal na economia), portanto, uma nação compromissada com o capitalismo e com o desenvolvimento.

Todas as nações ricas são capitalistas, isso é fato. É perigoso ver como o Brasil (junto com toda a América Latina) é novamente invadido por comunistas. Infelizmente de tanto repetir mentiras, Lula realmente convenceu o povo que havia uma “herança maldita” deixada pela direita. Lula reescreveu a história do Brasil, dando a entender em seus discursos que o PT criou tudo o que há de belo e bom no Brasil. Reconstruíram para melhor a nação, é o que pensava Lula e sua quadrilha. Desenhou-se como salvador da pátria. O resultado de tudo isso foi a progressiva desmontagem do Estado democrático, que hoje está totalmente infiltrado por agentes comunistas, que nenhum compromisso têm com os valores democráticos e as liberdades individuais.

O golpe final sobre a direita foi a criação do PSD, por Gilberto Kassab, que declarou sem medir palavras que o novo partido não era "nem de esquerda nem de direita". Sejamos claros: o PSD é uma aberração política, não tem ideologia e está pronto para apoiar quem estiver no poder, se isso render benefícios pessoais a seus integrantes. Agora o PSD alinha-se ao governo bolchevique petista. O fato é que o PSD levou grande parte dos membros do Democratas. Ora, quem não sabe que o PSD é obra planejada dentro dos núcleos comunistas do PT para acabar com a oposição? Isto está na cara, basta ter olhos para ver.

Agora dão “a última facada no defunto”. Conseguem pintar uma escandalosa relação corrupta entre o senador Demóstenes Torres, um dos grandes nomes da direita atual, e o bicheiro Carlinhos Cachoeira. A Polícia Federal grampeou o telefone do senador, e gravou falas de Demóstenes com Cachoeira. Na matéria publicada no último número da revista Veja, sobre o caso, estão reproduzidos trechos (muito editados, diga-se de passagem) da transcrição dos diálogos que os dois mantiveram. Para falar a verdade, a mídia, maldosamente, está fazendo um estardalhaço maior que os fatos. Nos trechos publicados não vejo nada de escandaloso. Não há a negociação de porcentagens de propinas em licitações, por exemplo. São conversas de duas pessoas tratando de assuntos particulares, nada mais. É muita hipocrisia querer crucificar alguém por manter contatos com um bicheiro. São contatos de amizade, sem implicações políticas.

Eu não vejo o jogo do bicho como um grave crime, nem como pequeno delito. O único crime dos bicheiros é que eles não pagam os impostos (exorbitantes) ao governo. E a mídia se “esquece” que o jogo do bicho gera milhares de empregos no Brasil. Pessoas que trabalham e ganham seu dinheiro sem prejudicar ninguém. As pessoas, que jogam no bicho, o fazem voluntariamente, como quando jogam numa loteria da Caixa Econômica, e nesse caso, com muito menos chances de ganhar algo.

Desconfio (como tenho direito) das pessoas da Polícia Federal que fizeram isso com Demóstenes. É vergonhoso vasculhar a intimidade de uma pessoa com a clara intenção de lançar calúnias na mídia, que hoje é claramente de esquerda. Os policiais – ou seus superiores - e os juízes que estão por trás disso devem muito bem também ser esquerdistas financiados pelo PT, esperando a primeira oportunidade para acabar com os resquícios de política conservadora. Obviamente estão tendo sucesso. O ouvidoria da Polícia Federal tem que investigar a vida financeira dos policiais envolvidos nesta operação. Certamente vão encontrar coisas muito podres aí.

Será um truísmo dizer que o caso Demóstenes Torres foi ridiculamente criado num momento muito oportuno, com o único objetivo de desviar os holofotes da mídia sobre o julgamento do Mensalão – além de ser mais um golpe com a intenção de minar com os resquícios de direita nesse país. O que é mais um argumento para colocar em descrédito tudo o que estão publicando sobre Demóstenes.

Eu me pergunto: o que acontecerá com Palocci e Dirceu, que atualmente ganham fortunas em “consultorias”, nas quais vendem licitações do governo federal a empresários, em troca de gordas comissões? É o dinheiro público indo para o ralo.

Com um congresso tomado de comunistas, e um Supremo também de comunistas, creio que nenhuma punição vão ter esses bandidos. Por outro lado, Demóstenes, nunca pego em ato de corrupção, que agora foi gravado falando com um bicheiro, é colocado injustamente num inferno político. Já está fora do Democratas, e creio que é quase certa sua cassação - claro que milagres existem, muito mais quando o povo protesta. Não posso esperar outra coisa, se for pensar no tipo de político que o cerca em Brasília. A honestidade passa por crime em terra de bandidos. Um conselho de ética infestado de bandidos e esquerdistas não deixará passar a chance de “se livrar” de um defensor da democracia e das liberdades, sejam individuais ou econômicas.

Como a esperança é a última a ir para o cemitério, esperemos que se faça a justiça (palavra que tem se tornado um arcaísmo no português falado no Brasil). Que Demóstenes possa concluir seu mandato, se sua postura continuar se mostrando correta, como atualmente.

Agora só devemos esperar que algum raio de lucidez desperte num grupo organizado de conservadores, na tentativa da erradicação completa do comunismo infiltrado na máquina do Estado, salvando seu caráter democrático.

quinta-feira, 15 de março de 2012

Manifesto contra minha geração

Ontem, no centro da cidade, eu estava na fila esperando o ônibus que me conduziria a meu bairro, e tive o desprazer de ouvir uma conversa que preferiria não ter ouvido. Logo atrás de mim estava uma mulher que aparentava ter mais de 40 anos. Após estar uns três minutos ali esperando o ônibus, chegou um rapaz, que por sinal estudara com meu irmão, e era conhecido dessa mulher da fila. Para falar a verdade, a coisa que menos gosto quando estou no ônibus é quando dois conhecidos se encontram e começam a conversar perto de mim. Não é em si pelo fato de conversarem perto de mim, mas por eu ser obrigado por meia hora ou mais a escutar sobre as mais variadas banalidades. Mesmo que eu queira não ouvir, não posso colocar as mãos nas orelhas durante toda a viagem, para evitar que esse tipo de lixo sonoro entre em meus ouvidos. Ainda que se desvie a atenção para o que se passa na rua, algo ainda acaba se ouvindo. Existiria como saída usar fones de ouvido, mas não gosto deles para ouvir música, mesmo porque no ônibus prefiro pensar, e a música torna-se uma distração para o pensamento. É triste ouvir a conversa de pessoas sem grandes expectativas e sonhos diante da vida. Mesmo não querendo, acabo ouvindo uma orquestra de banalidades, pessoas que fazem a proeza de gastar seu tempo falando sobre nada. De minha parte prefiro ir só para minha casa, só eu com meus pensamentos. Tenho esse hábito de no ônibus pensar sobre minha vida e trabalho. Muitas vezes resolvo algumas questões só no pensamento. Vou formulando, por exemplo, mentalmente problemas sobre os quais pretendo escrever. Por isso é bom não ter distrações por perto, como pessoas falando banalidades. Felizmente, devido à colonização europeia (alemã, italiana e portuguesa), no sul do Brasil as pessoas são mais “fechadas” e reservadas, por isso no ônibus geralmente as pessoas não conversam. Se for para ouvir somente de bobagens, melhor o silêncio.

Porém, ontem tive o desprazer de ouvir essas duas pessoas conversando atrás de mim. Nisso houve um ponto positivo: foi uma experiência quase antropológica, observar o comportamento de humanos em sociedade e abstrair certos padrões. Acabei aprendendo.

Quando entrei no ônibus e sentei, fiquei torcendo para que eles sentassem bem longe de mim, para não ter de ouvi-los. Para meu azar sentaram relativamente perto, mas o barulho do trânsito e do motor do ônibus abafaram suas vozes. Contudo, entre o instante em que o rapaz chegou ao ponto e o momento em que entrei no ônibus, ouvi fragmentos de uma conversa que me levaram a uma reflexão solitária, que por sua vez me levou a escrever esse texto. O rapaz relatou a mulher que estava na segunda fase de sua faculdade (pelo meu irmão eu já sabia que ele cursava Educação Física na Universidade Federal, que também havia me revalado que esse rapaz só entrou na faculdade por causa das cotas raciais). Além disso, falou a mulher que estava estudando para fazer um concurso para a Caixa Econômica. Ele concluiu com a frase: “Se eu passar estou feito”.

Dias antes tinha tido uma conversa com um amigo justamente sobre isso. Essa frase mostra bem os mais altos ideais da atual geração (dos que nasceram nos anos 80 e 90). Eu tinha falado a meu amigo que o maior objetivo de nossa geração é passar num concurso público, ser mais uma pequena engrenagem na gigantesca máquina onipotente do Estado. Esse ideal oculta uma constatação muito clara: ou você se torna um “escravo” nas mãos da iniciativa privada para ganhar 800 reais por mês, ou você se torna um “escravo” nas mãos do governo. Neste ultimo caso, com a “pequena vantagem” de ter um salário acima da média do trabalhador assalariado. Não há muita opção para minha geração. Para a grande maioria só há essas duas opções. O pior é que minha geração se deixa alienar por essa situação, e sente-se feliz com isso. Não há protestos e iniciativas organizadas para mudar o atual estado de coisas. Resignamo-nos diante da sociedade que nos é imposta pelos que têm o poder político-econômico. Não digo que são todos “escravos”, mas o são todos aqueles que abandonam seus sonhos e vocações para se enquadrar em um desses dois grupos.

Se o jovem não vem de uma família de empresários e políticos, só lhe resta submeter-se a ganhar os baixos salários da iniciativa privada, ou abandonar seus sonhos para ser funcionário público. Não digo que seja vergonhoso pretender uma vaga no serviço público por meio de concurso, mas deve pretender isso se realmente for essa sua vocação. Ser funcionário público deve ser uma opção livre, resultado de sentimento interior mais profundo, e não a única opção de ascensão social. Infelizmente os jovens sabem que na iniciativa privada vão ganhar pouco, sua única porta de fuga para uma vida melhor – segundo pensam – é um concurso, e “se encostar” numa repartição do governo. Isso realmente não é liberdade.

Desejar ascender socialmente não é vergonhoso. O que mostra a pequenez da sociedade brasileira é que a juventude sonha isso apenas por meio do funcionalismo público. A criatividade inerente ao jovem é podada pela educação e pelo meio em que vivem. Numa sociedade saudável haveria várias formas de honestamente ascender socialmente, como por meio da livre iniciativa, com pequenos empreendimentos comerciais, ou pelo estudo, tornando-se um profissional liberal ou um professor. Ocorre que mesmo os que estudam direito atualmente, em sua grande maioria, não sonham em montar seu próprio escritório para por conta própria ganhar seu dinheiro; pelo contrário, em vez de desejarem em primeiro lugar ser um profissional liberal, querem também o concurso público.

Esses fatos mostram o gigantismo do Estado no Brasil, o que é um perigo para a democracia, pois o poder torna-se cada vez mais centralizado e onipresente – tudo passa a girar em torno do governo, inclusive os ideais de vida da juventude. Creio que o tamanho Estado deve ser mínimo, apenas impedindo que abusos contra a liberdade individual sejam cometidos. Mas no Brasil se dá o contrário, o Estado cresce a cada ano e limita cada vez mais a liberdade do cidadão. Torna-se tão grande, que até os sonhos dos jovens é fazer parte dele. Formam-se como que duas castas, os do “Partido” que são políticos e os tecnocratas (com o baixo clero do funcionalismo público), e os escravos que estão fora do Estado e nas mãos da iniciativa privada, a qual vive intimamente ligada ao Estado. Ou seja, quase tudo no Brasil é controlado direta ou indiretamente pelo Estado. Isso demonstra que de fato estamos vivendo um momento em que o atual governo está desmontando as bases da democracia e do capitalismo, as quais lentamente são substituídas pelo modelo comunista. Na Coreia do Norte também é assim, ou você é do Partido, desfrutando das vantagens dessa posição, ou você é escravo do Partido. Esse é o caminho que o Brasil está trilhando. Hoje são pequenos os espaços autênticos de liberdade. Num futuro muito próximo (se é que esse futuro já não chegou) todos estarão trabalhando para o governo, ou como funcionário público, ou como um assalariado, dando, por meio dos impostos, 40% de sua renda para sustentar o Estado.

Por isso tudo não me sinto como parte de minha geração. Não tenho como única meta de vida fazer parte do governo. Sonho mais para minha vida. Fico revoltado ao ver que os ideais de vida de minha geração são os mais limitados e baixos possíveis. Na verdade não há ideais, o que há são somente aspirações materiais. Os únicos desejos são: bom emprego (que seja público), sexo, boa casa e bom carro.

Não é vergonha querer ter bens materiais, mas eles não devem ser a meta final, mas a consequência de uma aspiração mais nobre que não passa primordialmente pelo dinheiro. Devemos em primeiro lugar lutar por nossos sonhos – estudar para ser um profissional bom e honesto com vocação, empenhar-se por abrir um negócio próprio, etc. Qualquer profissão deve ser vista primeiro como uma missão, e a vida familiar também é uma missão. Devemos buscar a excelência em nossas atividades e relacionamentos, isso traz felicidade no trabalho e na família. A excelência é aquilo que traz a prosperidade. A vida deve ser vista como uma missão, cuja meta maior é a busca pela felicidade, que não deve ser individualista. Nossa felicidade individual passa pela busca da felicidade do próximo, que é toda a pessoa com quem convivemos. Mas quando a primeira meta é a prosperidade material, toda a busca pela felicidade se torna sempre frustrada. Se o alvo é a prosperidade material somente, a felicidade autentica foge a cada passo dado. O que ocorre é que minha geração não é feliz justamente porque pensa primeiro em “ficar feito”, e abandona toda visão mais elevada da vida. Minha geração tornou-se vazia, e por isso é deprimida. Esse vazio é consequência da falta de sentido mais profundo das coisas – trabalho, família, religião, sociedade, nação. Sonha-se com o dinheiro, com o qual se compra diversão. É o prazer pelo prazer como objetivo de existência. Essa é a sociedade que substitui a cultura pelo entretenimento, a arte pelo espetáculo.

Não hesito em afirmar que minha geração é uma geração perdida. Que frutos bons podem nascer de uma geração moralmente corrompida, para a qual as atividades sociais são hedonistas e fúteis? Que grande obra pode deixar uma geração que despreza o amor a sabedoria e a cultura? Que herança pode deixar uma geração que mede o valor de tudo pelo pragmatismo e pelo utilitarismo? Que valor tem uma geração que não se interessa em adquirir conhecimentos que não se prestam a uma utilização imediata para a obtenção de dinheiro? Que valor tem uma geração que poda conscientemente as aspirações elevadas do espírito para viver de modo animalesco, tendo como guias únicos o estômago e a vontade pelo sexo? Que consciência da verdade pode ter uma geração que inverte o senso de realidade, para a qual a verdade torna-se mentira, e a mentira transforma-se num dogma inquestionável? Que futuro pode ter uma geração que desconhece seu passado, que vai a faculdade, mas é analfabeta em história e política? Que alma pode ter uma geração que só mira o prazer que se pode obter com o uso do corpo como objeto? Disso tudo o que mais preocupa é fato de que a história que estamos escrevendo será lembrada como um grande vazio, pois há um ponto no vale que uma vez alcançado, dele não podemos continuar descendo, decaindo eternamente.

Por todos esses motivos não me sinto como parte dessa geração. Sou um exilado em meu próprio tempo.

Somente me resta uma consolação: saber que, por milagre, uma minoria ainda restou sem ser contaminada pela decadência desse século. Esses jovens são “a luz do mundo”, motivo pelo qual vale a pena viver e lutar.

segunda-feira, 27 de fevereiro de 2012

Quaresma, origem e significado atual

A quaresma é esse período de quarenta dias que em os católicos fazem penitência em preparação a festividade da morte e ressurreição de Cristo – o maior acontecimento da história da Igreja, em todos os tempos, porque se Cristo não tivesse vencido a morte e ressuscitado, não haveria Igreja, muito menos salvação. Pois a salvação vem da Igreja, na observância de seus mandamentos e sacramentos.

Mas por que quarenta dias de penitência? Eis aí uma pergunta que pode estar na mente de muitos cristãos. Para explicar o que significa a quaresma (e sua duração) cito o livro A Doutrina Cristã, de Santo Agostinho:

“A ignorância dos números também impede compreender quantidade de expressões empregadas nas Escrituras sob forma de figura simbólica.

“Certamente, um espírito bem nascido sente-se levado a se perguntar o significado do fato de Moisés, Elias e o Senhor terem jejuado por quarenta dias (Ex 24, 18; 1Rs 19, 8; Mt 4, 2). Ora, esse acontecimento propõe um problema simbólico que só é resolvido por exame atento desse número. Compreende o número 40 quatro vezes 10 e, por aí, como que envolve o conhecimento de todas as coisas incluídas no tempo. Pois é num ritmo quaternário que prossegue o curso do dia e do ano. Divide-se o dia em espaços horários de manhã, do meio-dia, da tarde e da noite. O ano estende-se nos meses da primavera, do verão, do outono e do inverno. Ora, enquanto vivemos no tempo, devemos nos privar por abstinência e jejum dos prazeres que o tempo nos proporciona. É certo, aliás, que o próprio curso do tempo ensina-nos a menosprezar o tempo e desejar a eternidade. Por outro lado, o número 10 simboliza o conhecimento do Criador e da criatura, pois 3 designa a Trindade do Criador e 7, a criatura, considerada em sua alma e em seu corpo. Com efeito, na alma, há três movimentos que levam a amar a Deus de todo coração, de toda a alma e de todo o espírito (Mt 22, 37). E no corpo, estão bem manifestos os quatro elementos que os constituem. Consequentemente, este número denário move-nos à ciência [ou seja, conhecimento] do tempo. Isto é, voltando quatro vezes, adverte-nos para vivermos na castidade e na continência, desapegados dos deleites temporais, e prescreve-nos jejuar quarenta dias.

“Eis o que nos explica a Lei personificada em Moisés; eis o que mostra a profecia, representada por Elias; eis o que nos ensina o próprio Senhor. Apoiando-nos no testemunho da Lei dos Profetas, ele apareceu em plena luz, entre essas duas personagens, sob os olhos dos tres discípulos tomados de espanto (Mt 17, 2.3)” (pág. 113).
Temos então as sábias palavras de Santo Agostinho. O número 40 é então símbolo da plenitude, e a plenitude da revelação está na encarnação do Verbo. Jesus, cheio do Espírito Santo, após seu batismo nas águas, é levado ao deserto em jejum. Este é um ponto decisivo na vida de Jesus, pois sua retirada ao deserdo é o último ato que faz antes de entrar definitivamente na vida pública. É a “conversão” de Jesus de marceneiro a profeta. Como Deus aspira que todos sejamos profetas – o dom da profecia é o mais elevado dos dons carismáticos -, a Igreja no período de 40 dias antes da Páscoa nos convida a imitar Cristo, ou seja, fazer penitência para que nós também nos convertamos segundo a vontade do Espírito.

Mas a penitência no mundo moderno não é só jejuar, como se fazia no passado. Há diversas formas de penitência eficazes no fortalecimento da fé e da caridade. Porque a penitência não deve ser uma ato sem significado concreto ao cristão, ela deve nos levar a conversão, e conversão significa enraizar-se mais na fé e na prática do amor (caridade). Portanto, podemos nos privar de comprar algo e doar esse dinheiro a uma obra de caridade ou a Igreja; podemos nos abster de um certo alimento que apreciamos muito; podemos de deixar de frequentar festas; ajudar uma família necessitada; doar alimentos; etc. São tantas as formas de praticar a caridade que não daria para listar aqui. O importante é que esses atos exteriores nos levem a uma transformação interior. Por isso quaresma é antes de tudo um tempo de transformação pessoal, no qual nos empenhamos para que nosso coração seja cada vez mais semelhante ao coração de Jesus.

Referência
AGOSTINHO, Santo. A doutrina cristã. 2 ed. São Paulo: Paulus, 2007.